• Ricardo Koema

Em novo romance, Evandro Affonso Ferreira descreve a vida de cinco personagens que sobrevivem ao rel


NUNCA HOUVE TANTO FIM COMO AGORA

Evandro Affonso Ferreira

Páginas: 160

Preço: R$ 39,90

Editora: Record/ Grupo Editoria Record

Por Nelson Vasconcelos

Com oito romances publicados entre 2002 e 2016, Evandro Affonso Ferreira recebeu dois dos mais importantes prêmios literários do país. Uma proeza. O primeiro foi o Prêmio APCA, em 2010, com “Minha mãe se matou sem dizer adeus” – título deveras instigante. Em 2013 ganhou o Jabuti por “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, em que o narrador decide viver na rua depois que é abandonado pela mulher. Não menos instigante.

É com esse currículo que Evandro Affonso lança agora seu nono romance, “Nunca houve tanto fim como agora”. Na sua prosa peculiar, trata do povo das ruas, do submundo das calçadas, da convivência entre merdunchos com seus ranhos e remelas, a violência do dia a dia da grande cidade. No fim das contas, trata de todos nós. É livro que cutuca as feridas e, por isso mesmo, provoca reflexão. O trato com a linguagem, por sua vez, provoca a sensibilidade do leitor - que, página por página, é conduzido ao final sem dó nem piedade.

Em entrevista ao blog da editora, Evandro Affonso conta que somente a literatura interessa a ele – como diria Kafka. Mas ele diz também que sabe que o mundo está ali ao lado – o que casa perfeitamente com suas histórias, que resultaram em outros títulos inusitados, como “Os piores dias da minha vida foram todos” e “Não tive nenhum prazer em conhecê-los”.

Crítico, ele também não deixa de fazer uma curiosa consideração a respeito de prêmios literários: “Prêmio é bom quando tem dinheiro - para mim nunca houve. Geralmente ganho prêmios que não dão dinheiro - logo, tapinhas nas costas, nada mais.”

A obra chega em junho às livrarias, pela Record.

ORELHA:

“Vítimas do abandono épico”, cinco personagens (dizer pessoas seria já reconhecer a humanidade perdida em nós mesmos, hipócritas leitores) sobrevivem nas ruas de São Paulo, entre ranhos e remelas, ao relento. Em suas conversas, gritos, tosses e divagações, esses “ácaros topográficos” buscam o sentido da vida, denunciando o desdém geral dos transeuntes, “desprovidos do olhar do outro”.

Escritor premiado e com leitores atentos, Evandro Affonso Ferreira alcança, neste novo romance, um raro equilíbrio entre apuro literário, inovação linguística, reflexão filosófica e crítica social. Resistindo ao apelo das narrativas uniformizadas, que atualmente se confundem no vazio, Evandro tem pacientemente cultivado, ao longo de décadas, o próprio estilo. O resultado é único: uma voz contundente, ao mesmo tempo honesta e erudita, reconhecida pelo leitor desde as primeiras linhas, como ocorre nos maiores nomes de nossa literatura.

O estilo preciso ilumina as “sombras mutiladas” que habitam o subsolo dos “esquecidos”. O esforço de rememoração de um sobrevivente das ruas, agora “em situação relativamente estável”, é a metamorfose do esforço artístico empenhado em não naturalizar a desgraça dos miseráveis. Nessa magnífica “teodiceia às avessas”, pessoas que “já nascem apagadas”, como “matérias em decomposição do mesmo lodo”, acusam o “indiferentismo dos outros” e de nós mesmos. Eurídices e Ismênios, cercados por personagens sem nada, “menos que troco”, transformam em tragédia clássica as notas de um rodapé das sarjetas.

Ao retratar literariamente o que Theodor Adorno denominava “vínculo geral de culpa”, Evandro oferece aos leitores, por meio desta “sagração do relento”, a possibilidade de encarar a miséria invisível que habita as almas e o cotidiano de nossas cidades. Neste mundo em que (como cita um dos personagens, sem entender ao certo o que isso significa) todos seremos “obsoletos”, é urgente sujar os dedos nas farpas que este belo romance, repleto de podres e solidárias aventuras, acumula a cada página, em busca de uma cada vez mais improvável redenção. (Jorge de Almeida)

TRECHO:

Ranhos, remelas? Jorravam quando o irremediável perfurava o relento, alheio a nossas reiteradas aspirâncias, a nossos praguejares viscosos, escorregadios, obscenos. Ah, aqueles orvalhos insalubres, impiedosos, desacolhedores de nossas plangências invernais. Ficávamos curvados diante da arrogância atmosférica do relento, que praticava tempo todo funambulismo, traquinice mórbida. Cavava aos poucos covas rasas. O infatigável, desmesurado relento, aquele que, com sua umidade (por que não dizer?) póstuma, puía nossas noites ainda mais.

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